| Estudos |
O stress ocupacional dos trabalhadores temporários tem sido destacado como um importante tópico de investigação (para revisão, ver De Cuyper et al., 2008). Vários estudos têm sido realizados para testar a hipótese de que os trabalhadores temporários são expostos a condições mais adversas de trabalho e, portanto, apresentam pior saúde física e psicológica. No entanto, as evidências empíricas sobre a relação negativa prevista entre trabalho temporário e saúde são inconclusivas (De Cuyper et al., 2008). Além disso, a maioria desses estudos baseia-se na Teoria do Stress Ocupacional, com um foco exclusivo na patologia.
Para ultrapassar essa limitação, desenvolvemos este conjunto de quatro estudos e incluímos variáveis, relações e processos positivos no estudo do bem-estar dos trabalhadores temporários. Mais especificamente, pretendemos estudar que aspectos do trabalho os trabalhadores temporários percebem como positivos, bem como os níveis de eustress dos trabalhadores, nomeadamente o seu engagement profissional (Schaufeli et al, 2002a e 2002b); explorámos também as estratégias de savoring (Bryant & Veroff , 2007) que os trabalhadores usam para apreciar e intensificar as experiências de eustress, através de uma adaptação, para este contexto de trabalho, da versão portuguesa (Meneses dos Santos, Carvalho, & Marques Pinto, 2008) da escala de estratégias de savoring de Bryant e Veroff (2007). Por fim, tivemos por objectivo compreender que diferentes práticas de recursos humanos, percebidas pelos trabalhadores temporários, estão associadas a estes acontecimentos e experiências emocionais positivas no contexto de trabalho. O nosso principal objectivo foi o de lançar alguma luz sobre como desenvolver sistemas de GRH que aumentem a probabilidade de experiências de eustress, o uso de estratégias para “saborear” essas experiências positivas e, assim, contribuir para os sentimentos de engagement dos trabalhadores temporários.
Até o momento, foram realizados três estudos. O primeiro estudo incidiu sobre uma amostra de cento e vinte trabalhadores de call center de uma agência de trabalho temporário Português. Estes trabalhadores foram convidados a identificar os acontecimentos positivos que viveram durante o seu trabalho. Através de procedimentos de análise de conteúdo foi possível classificar os acontecimentos positivos em duas categorias principais: uma relacionada com a experiência de relacionamentos positivos (por exemplo, "reuniões diárias com os colegas", "o jantar de Natal", "conhecer novas pessoas") e outra relacionada com as práticas de recursos humanos (por exemplo, "sessões de formação", "terem-lhe sido atribuídas novas tarefas com mais responsabilidade", "feedback", "reconhecimento do mérito"). Este estudo concretizou a nossa primeira tentativa de categorizar acontecimentos positivos em contexto de trabalho temporário. Estas categorias serão testadas em estudos futuros. No que diz respeito níveis de engagement, verificaram-se bons níveis de Vigor e Dedicação, concluindo que os trabalhadores temporários apresentam indicadores positivos de bem-estar. No que respeita à adaptação do instrumento de savoring, foi possível identificar na nossa amostra as principais estratégias previstas (com bons indicadores psicométricos), construindo um quadro referência base para futuros estudos. Além disso, foi possível identificar relações significativas entre acontecimentos positivos, estratégias de savoring e níveis de engagement. Verificámos ainda que as estratégias de savoring (nomeadamente, "comparação" e "auto-congratulação") constituem moderadores importantes da relação entre acontecimentos positivos e engagement. Quando os trabalhadores experimentam "acontecimentos positivos relacionados com as práticas de recursos humanos" e saboreiam estas experiências (através de estratégias de comparação e de auto-congratulação), tendem a apresentar níveis mais altos de engagement (vigor e dedicação), quando comparados com aqueles trabalhadores que não utilizam estas estratégias. Como esperado, este estudo confirmou que as práticas de recursos humanos podem gerar acontecimentos positivos, e, além disso, quando a experiência destes acontecimentos é combinada com estratégias de savoring, os trabalhadores exibem níveis mais elevados de bem-estar.
O segundo estudo é similar ao estudo1, mas num contexto de trabalho diferente. Este estudo incidiu sobre uma amostra de trabalhadores temporários de uma fábrica de cabos eléctricos. A recolha de dados ainda está em curso.
No terceiro estudo, utilizámos uma amostra de quatrocentos e doze operadores de call center e respectivas chefias (132 supervisores). Esses trabalhadores de call center eram empregados tanto de carácter temporário como com contrato permanente. Nos call centers, é atribuída aos supervisores a responsabilidade de implementar estratégias de alto envolvimento e de manter os trabalhadores alinhados com os objectivos do call center (Kinnie, Hutchinson & Purcell, 2000). Assim, os supervisores passam grande parte do tempo a dar feedback sobre o desempenho, a promover desafios no trabalho ou acontecimentos sociais para manter os trabalhadores motivados. Desta forma, os supervisores são importantes agentes organizacionais que podem influenciar a forma como os trabalhadores interpretam e dão sentido às suas experiências quotidianas. A nossa hipótese era a de que estas actividades promovidas pelos supervisores podem ser importantes fontes de acontecimentos positivos para ambos, supervisores e operadores. Além disso, a maioria dessas estratégias de savoring (partilha, construção de memórias, comparação, auto-congratulação) são a base de várias acções, bem documentadas, de promoção do envolvimento dos trabalhadores (empowerment, participação, grupos de discussão e celebração dos sucessos: Batt, 2002, 1999; Kinnie et al, 2000). Assim, acreditamos que, quando os supervisores promovem acontecimentos positivos e, simultaneamente, desenvolvem estratégias para “saborear” esses momentos, tanto os supervisores como os operadores registam níveis mais elevados de bem-estar. Com base no estudo um, estávamos interessados em analisar a percepção de acontecimentos positivos pelos supervisores, os seus níveis de engagement e utilização de estratégias de savoring. Verificou-se que os supervisores identificam diversos tipos de acontecimentos positivos: "Ser formador", "Reconhecimento pelos membros da equipe", "Reconhecimento pela organização ou pelos clientes", "Melhorar o desempenho dos trabalhadores" e "Coesão e as relações afectivas". Essas categorias podem ser agrupadas em duas grandes categorias, semelhantes às encontradas no estudo 1 ("a experiência de relações positivas" e "acontecimentos positivos relacionados com as práticas de recursos humanos"). Novamente, encontrámos bons níveis de vigor e dedicação entre os supervisores e confirmámos a consistência interna do instrumento de estratégias de savoring". Finalmente, os resultados demonstraram que, como esperado, as estratégias de savoring ("auto-congratulação", "comparação" e "construção de memórias") estão associadas a altos níveis de engagement. Outras análises estatísticas estão ainda em curso. Pretendemos analisar se as estratégias de savoring e os níveis de engagement dos supervisores influenciam os níveis de bem-estar dos operadores. Entretanto, temos vindo a realizar entrevistas de focus group com os supervisores para debater os principais resultados e discutir possíveis linhas de intervenção.
No que diz respeito à nossa investigação futura, continuaremos a estudar amostras de trabalhadores temporários de diferentes organizações e a explorar os acontecimentos positivos vividos por esses trabalhadores, e sua relação com as práticas de recursos humanos, por um lado, e as estratégias de savoring e experiências de eustress, por outro.
“Eustress, savoring e bem-estar em trabalhadores temporários”